Acariciara o gato preto, magrinho. A rua parecia feita para aqueles gatos, sombras invisíveis nas entradas das casas, aparecendo de súbito no meio da calçada, no luar nevoento, silenciosamente. E eram sempre magros, espécies abandonadas à procura de qualquer coisa que não existia para elas. Chamara baixinho aquele gato e, antes de prosseguir o caminho estreito, cantara-lhe a canção de berço que falava da chuva. "Adormece, adormece, querida filhinha ..." Porém, as palavras faltavam-lhe. Tantas palavras esquecidas, perdidas numa escuridão qualquer.
Agora estava na casa dele, pela primeira vez. As trevas tinham ficado fora, algures no bairro antigo. Ele era "um rapaz agradável", como se dizia. Sem saber o que a levara para cá, sentia-se contente no calor do quarto iluminado. Ele era lindo, sorridente e irradiava confiança. Simplesmente gostava dela.
Dir-lho-ia. Dir-lhe-ia o que ainda estava apenas dentro dela. Lá fora, uns gatos começaram a cantar, lá onde não se podia dizer qual a luz que estava mais mórbida: a da lua ou a dos candeeiros. Muito devagar tirou a fita preta do cabelo, que ficou a pender em caracóis abundantes nos ombros. Não costumava levar o cabelo solto, que contrastava com o rosto fino, ficando-lhe bem. O rapaz gostava dela. Então ela pôs-se a falar lentamente, atribuindo peso a cada palavra:
- Sabes que na verdade me chamo Setore.
Parecia uma fada com o cabelo escuro espesso e os olhos abertos, muito luminosos.
- Pois ... sempre pensei que te chamavas Estrela, não é?
- Chamo-me Setore. Setore é Estrela, Setore sou eu. É o meu verdadeiro nome, e tu tens de sabê-lo.
Incrédulo, ele sorriu vagamente, até ela continuar:
- Mas isto é um segredo profundo. És a única pessoa a compartilhá-lo. Promete que näo o dizes a ninguém! Prometes, não?
Ele fitou-a, fitou a seriedade nela durante alguns instantes. De repente desatou a rir, e a gargalhada cortou o ar como um punhal, cortando todos os laços que jamais existiram entre ambos.
As palavras ditas, porém, permaneciam no ar. Acabara de revelar o seu nome, a coisa mais preciosa que lhe restara, a um indigno que nunca o compreenderia. Que ficaria sempre com este saber, sem o merecer. Neste momento deu-se conta que se traíra a si própria por um erro sem remédio.
Virou-se, prendeu o cabelo com a fita e saíu da casa, que não era feita para ela. A calçada da rua reluzia de humidade, e o gato estava mesmo piolhento. Não lhe restava outro caminho senão este, senão prosseguir esta vida de traidora de coração esvaziado e a cada passo mais pesado. Setore entrara nos ouvidos distantes, Setore dispersara-se, Setore perdera-se.
© 1991 by Silke Liria Blumbach. All rights reserved.